
Algumas situações complicadas não podem ser resolvidas contando apenas com o suposto bom senso e civilidade das pessoas que fazem por viver connosco. Ter uma deficiência pode ser tê-la sentido-a ou tê-la quase sem a sentir: e isso, em parte, depende dos outros e não apenas, como se pretende, na maior das partes, fazer crer, de nós próprios.
Sartre diria que o inferno são os outros. Eu acho que depende dos outros e da qualidade, digamos assim, do carvão.
Imagina-te numa fila de espera de um serviço público. Abres a porta do dito serviço e as pessoas mostram, subitamente, um semblante decrépito, como se por elas tivesse caído uma nuvem imensa de cansaço e nenhuma delas pudesse deixar-te passar à frente da fila. Por seu turno, os funcionários mostram-se subitamente interessados no trabalho que estão a desempenhar e tiram subitamente várias fotocópias, como se a máquina fotocopiadora tivesse sofrido uma convulsão e precisasse que eles, de costas para ti, a trouxessem de novo à vida. Tudo muito subitamente.
Das duas uma: ou vais dar uma volta (nunca sem antes respirar fundo, contar até 10 ou até 20 – consoante a humidade do ar – e rodares o pescoço fazendo estalar as vértebras, uma a uma) ou então gritas qualquer coisa como: Decreto-Lei 135/99, de 22 de Abril, I Série A do Diário da República n.º 94 do mesmo ano, ao n.º 1 do Artigo 9.º!
Já o fiz. Resultou. E não fui internado.

