Mostrar mensagens com a etiqueta superação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta superação. Mostrar todas as mensagens

15 de janeiro de 2008

Tornando as coisas verdadeiramente subjectivas, se há algo que profundamente me irrita é estar consciente, mesmo que demore, que há pessoas que não têm nada para dizer às outras pessoas e ao mundo. É uma atitude egoísta, sim, que não se deve obrigar ninguém a não ser aquilo que não é, aquilo que porventura não quer ser. Mas é assim, mesmo que possa não ser importante.

Tornando as coisas ainda mais subjectivas, para mim, ter uma deficiência é ver as coisas de outra forma, não necessariamente melhores nem mais demoradas no olhar mas é, mesmo assim, ver as coisas de outra forma. De outras formas. É ver as coisas a partir do canto cego das próprias coisas.

Quando miúdo, lembro-me de uma conversa entre mim e R. Falávamos, à medida da nossa altura, da possibilidade de as coisas dançarem entre elas quando não as víamos, quando, mesmo perto de nós, as perdíamos de vista por estarmos de costas, por estarmos distraídos, por estarmos no escuro ou por outra coisa qualquer.

Ainda hoje penso que pode ser assim e que, por qualquer razão, quando olho rapidamente pelo lado cego do meu ombro rápido, as coisas ainda podem, mesmo que em vertigem, estar a dançar por detrás dos nossos ombros tão lentos.

Em muito pouco, quem se consegue afirmar pela diferença que em si se faz por ser diferente poderá ser mais próximo das coisas do mundo, pelo mundo, por si para o mundo. Poderá entender, por infame pretensão, a aceitar-se, a aceitar a arte, a aceitar a vida e a poesia toda.

Poderá entender coisas como esta, coisas assim como esta…




video: youtube.com

5 de setembro de 2007

Este blog pretende ser essencialmente informativo, divulgando e pensando, de um modo geral, as pessoas com deficiência; de um modo particular, as pessoas com Spina Bífida e Hidrocefalia em Portugal e no Mundo. Tem o nome que tem por ser o nome de uma Instituição que o autor deste blog muito preza, independentemente de quem por lá passa e por ser, em boa verdade, uma Instituição com 30 anos de existência, fazendo inequivocamente história na história da vida de muitas outras pessoas.

Ao crescer, um blog, como tudo, modifica-se. Ascende de um propósito simples – mero résumée enciclopédico e factual da vida de uma casa -, a um objecto diferente – chegar a todos, de forma justa, equitativa, cuidada, nunca a nivelar por baixo. Em causas destas, a carecer de humildade, ninguém é de pôr de parte: é de pôr por cima, ouvindo todos, pondo a discussão em todas as tónicas.

Um blog de todos para todos, mas não meramente objectivo, no sentido em que demasiada objectividade cansa e, às vezes, até se lamenta. Objectividade pura e simples reflecte, normalmente, espíritos pouco iluminados, pouco inteligentes, demasiados prácticos (no pior sentido que a palavra possa ter): é por isso que, por vezes, é preciso mudar. E é por isso que me imagino, hoje, na pele de um pai ou de uma mãe de uma criança com Spina Bífida ou Hidrocefalia acabada de nascer como me imagino amanhã na pele de uma pessoa com Spina Bífida (que sou) como me imagino, depois, na pele de quem não a tem ou de quem me vê ao longe como se estivesse a prever de mim uma espécie de destino de casa de banho por pertencer, no fundo, a uma grande minoria, normalmente mal representada tanto de um ponto de vista institucional como de um ponto de vista grupal.

É por isso que, objectivo, algo reservado mas necessariamente crítico, mantenho isto. Ao monitorizar o blog noto em si alguma utilidade – mais, penso, nas perguntas feitas que nas respostas dadas – e, enquanto puder e Deus me der forças, perpetuá-lo-ei no tempo e no espaço de vida de quem o lê. Afinal, informação é poder (e poder de encaixe).

E é por isso, também, que saúdo hoje a entrada de alguém que, objectivamente, poderá dar um contributo, nesta medida, ao blog e que poderá, quem o sabe?, dar-lhe mais umas luas de vida.

Vem por bem.

imagem: preshaa.com

30 de agosto de 2007


27 de Maio, a eterna Lisboa,ao largo do Padrão dos Descobrimentos, 17 horas, 14 minutos, entre o 22º e o 23º segundo do tempo. A luz que eu queria e consegui ter, por superação.

10 de julho de 2007



Eu perguntei.

M., alguém com Spina Bifida, aceitou o desafio.





Começando pelo fim: diz-me se és feliz.

Sou feliz. Conquistei várias coisas que muitos julgavam impossível, mas que eu, lá no fundo, sempre achei verosímil. E, perdoem-me, sinto-me mesmo orgulhosa por isso!!!

A tua relação com o espelho... gostas do teu reflexo?

Sim, mas há uma gordurinhas aqui e ali que teimam em ficar e não ir embora.. também o espelho, felizmente, não vai até aos pés. O que importa é olhar para ele de frente. Eu, por exemplo, aprendi a ver na minha cicatriz um rio. E acho que até dava uma tatuagem bem interessante, se acrescentássemos um sol.

Define amor. Ou Amor.

O amor é rir e fazer cócegas. È passar por uma fonte e molhar o outro. E andar a correr e fugir, para não ser apanhado. O Amor é tudo isso misturado com a cumplicidade, confiança e segurança.

Norte e Sul: pontos cardeais?

Infelizmente, no nosso pais não são apenas pontos cardeais. Noto isso em várias vertentes (basta ver o ódio SLB e FCP), e sei no fundo que pelo facto de uma parte de mim ser SB, isso pode fazer alguma diferença.

A que sabem as tua lágrimas? São mais doces ou mais salgadas?

As minhas lágrimas são iguais às de toda a gente. Caiem quando têm de cair, ou quando já não podemos aguentá-las cá dentro. Às vezes são muito doces, cheias de orgulhos e satisfação, mescladas com realização pessoal, de felicidade sincera. Outras vezes são salgadas, porque os meus passos poderiam ter ido mais além. E não foram.

Imagina que tens uma visão particular acerca das pessoas sem deficiência.

Não há pessoas com, não há pessoas sem. Há pessoas. Umas sabem ler chinês, outras sabem fazer contas de dividir de cabeça, outras andam 500 metros sem se cansarem, outras preferem ficar a fumar um cigarro do que dar três passos. Vai soar a cliché, mas “ todos diferentes, todos iguais.”

Uma coisa que gostes especialmente e que sejas capaz de descrever com todos os pormenores imagináveis e inimagináveis... Podes?

Nahh! Eu gosto de tanta coisa!! Só posso escolher uma?
Pode ser de comer? Pode ser de visitar? Pode ser de abraçar? E descrever assim...!! Desisto. Não consigo!


Há vida em Marte. Há?

Eu bem gostava de acreditar que sim, mas se já andamos aqui há tantos anos e eles nunca se mostraram, então é porque não devem mesmo existir... na verdade, nem isso me ocupa muito o pensamento. Se existirem, é lá com eles. Que não venham para Portugal, que já há muito desemprego.

The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes "Awww!”

Jack Kerouac.

Há mais a dizer que isto?


Nada mais! Mas ainda assim... eu diria que esse tipo de pessoas não são mad (loucas) mas sim corajosas e que sabem exactamente aquilo que querem. Que não aceitam a vida como apenas um acaso do destino, mas que estão dispostas a querer fazer alguma coisa por elas próprias!


(Obrigado, M., por tudo. Obrigado, igualmente e mais uma vez, a Andreia d'Oliveira, a autora da excelente foto supra)